Fusako Shigenobu, em suas próprias palavras

Fusako Shigenobu, em suas próprias palavras

Tradução para o português: Red Yorkie

Fusako Shigenobu é a ex-líder do Exército Vermelho Japonês, uma organização guerrilheira comunista que realizou ataques contra as embaixadas de vários países ocidentais, alvos militares estadunidenses e empresas transnacionais, da década de 1970 até o final da década de 1980. Fusako nasceu em uma família da baixa classe média em Tóquio em 1945, e começou seu ativismo no final dos anos 1960, protestando contra aumentos das mensalidades na Universidade Meiji, onde ela era aluna no período noturno. Depois disso, ela se envolveu com o movimento estudantil japonês, que protestava contra a Guerra do Vietnã e o conluio do Japão com o império estadunidense na forma do Tratado de Segurança EUA-Japão.

A fundadora do Exército Vermelho Japonês, Fusako Shigenobu, em imagem do documentário “Children of the Revolution” (Filhos da Revolução) | © TRANSMISSION FILMS 2011

No início dos anos 1970, ela e vários camaradas viajaram ao Líbano para ingressar na luta armada em solidariedade à Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), o que acabou levando à criação do Exército Vermelho Japonês. Em 1972, três voluntários japoneses na FPLP realizaram um ataque ao Aeroporto de Lod, em Israel, (posteriormente conhecido como a Batalha de Lydda) em uma tentativa de assassinar o cientista israelense responsável por desenvolver armas bioquímicas para uso contra o povo palestino. Embora Fusako não estivesse presente no ataque, ela foi forçada a seguir para a clandestinidade depois que o EVJ foi considerado uma organização “terrorista”, e membros da FPLP e do EVJ passaram a ser alvos para serem assassinados por esquadrões da morte israelenses.

Como observa a filha de Fusako, Mei Shigenobu, em um artigo recente para The Funambulist:

O Exército Vermelho Japonês (EVJ) é principalmente conhecido no Japão e no exterior por sua luta armada e operações militares contra interesses capitalistas e imperialistas ao redor do mundo, as quais, muitas vezes, eram executadas por meio de sequestros e pela tomada de reféns. Porém, muito menos conhecido é o fato de que o EVJ prestou uma solidariedade coesa e eficaz para com o povo palestino por meio de trabalho de base, de natureza artística e humanitária. Por exemplo, alguns médicos foram ao Líbano abrir clínicas em campos de refugiados, ou treinaram pessoas em acupuntura; artistas deram sua contribuição por meio de sua arte ou coproduziram peças de teatro, ao passo que autores escreveram sobre palestinos proeminentes, como Ghassan Kanafani[1], ou traduziram seus textos.

Fusako também desempenhou um papel crucial como editora na revista Al Hadaf, o escritório de relações públicas da Frente Popular para a Libertação da Palestina.

Seu trabalho lá fortaleceu o apoio japonês à causa palestina, ao manter os ativistas japoneses de esquerda informados sobre o que estava efetivamente acontecendo na luta palestina e no Oriente Médio. Além disso, ela também forneceu apoio logístico para voluntários japoneses que chegavam, conectando-os a camaradas palestinos.

Em 1973, Fusako deu à luz sua filha, Mei Shigenobu. Elas viveram na clandestinidade durante décadas antes que Fusako fosse presa no Japão, em 8 de novembro de 2000, e condenada a 20 anos de prisão acusada de falsificação de passaporte. Enquanto esteve na prisão, Fusako dissolveu o Exército Vermelho, reconsiderando suas antigas táticas em relação a um movimento de libertação.

Durante o período em que ficou presa, Fusako foi apoiada por um grupo pequeno, porém determinado, de camaradas japoneses que adotaram o nome de “A Oliveira”. Por mais de 20 anos, esse grupo publicou um boletim informativo mensal que permitiu que Fusako comunicasse seus pensamentos para o mundo exterior, inclusive suas reflexões sobre atualidades, especialmente a situação geopolítica no Oriente Médio; registros diários detalhando suas observações da prisão; poemas tanka[2] originais; além da correspondência que ela trocava com pessoas que escreviam para ela de fora da prisão.

Depois de 20 anos encarcerada, Fusako foi solta mês passado. A carta abaixo é do último boletim que ela escreveu da prisão, em dezembro de 2021. Nela, Fusako reflete sobre tudo o que mudou no mundo nos últimos 20 anos, e o que ela espera alcançar após sua libertação.

— Lisa Hofmann-Kuroda, tradutora

Da capa do boletim A Oliveira, № 156. O texto japonês abaixo diz o seguinte: “Soltem ela já! Vamos apoiar a sra. Shigenobu e rejeitar essa sentença injusta!”

Em direção ao ano novo

Boletim A Oliveira, Nº 156

de Fusako Shigenobu

2021: Finalmente, cheguei ao meu último dezembro na prisão.

Quando era jovem, não valorizava tanto a minha vida, tratando-a como algo que podia ser descartado sem a menor cerimônia. Então, na prisão, desenvolvi um câncer e tive de passar por inúmeras cirurgias. Desnecessário dizer que jamais imaginei que viveria tanto.

Passei pela vida com um senso de propósito, paixão, curiosidade e um desejo tenaz de viver como eu mesma – mesmo tendo cometido inúmeros erros. No entanto, sou profundamente grata por ter conseguido viver a minha vida de acordo com as minhas intenções.

Ano que vem, 2022, é também o ano em que finalmente serei libertada da prisão – no dia 28 de maio, para ser mais exata. Lembro do poema que surgiu quando ouvi pela primeira vez a decisão do tribunal naquele dia agora tão distante: “Essa sentença não é o fim/Ela é apenas o começo/A minha vontade obstinada borbulha e ferve.” Pensando nisso, sinto como se o meu tempo na prisão desde então passou num piscar de olhos. Para aqueles entre vocês que me apoiaram e me encorajaram – meus amigos, camaradas, parentes, advogado, médico e, finalmente, vocês, leitores de “A Oliveira”, que me apoiaram silenciosa e inabalavelmente, gostaria de expressar a minha mais profunda gratidão. Muito obrigada a todos vocês – muito obrigada mesmo!

Quando penso no período da minha prisão, parece claro, em retrospectiva, que ele marcou o início de uma era de imensa desigualdade que continua até hoje. Em 28 de setembro do ano 2000, os palestinos começaram a protestar contra as atrocidades de Israel naquela que viria ficar conhecida como a Segunda Intifada (A Revolta do Povo) – uma batalha intensa e violenta. Então, em 2001, o regime de Sharon assumiu o poder, e a Autoridade Palestina, sob o Presidente Arafat, começou a ruir. Logo em seguida, o presidente da FPLP foi assassinado por um ataque de míssil e, em seguida, o 11 de setembro aconteceu. As rápidas mudanças ocasionadas pela revolução tecnológica, bem como a total comercialização da sociedade humana e do mundo natural pelas forças neoliberais, aumentou a desigualdade e a disparidade em todos os lugares sob a guisa de “democracia”, “direitos humanos” e até mesmo “ambientalismo”.

O 11 de setembro inaugurou uma nova era caracterizada pela normalização das guerras de agressão. Sob as bandeiras gêmeas de “antiterrorismo” e “democracia”, o Oriente Médio – do Iraque ao Afeganistão – foi completamente destruído. Claro, os que mais sofreram – e que continuam a sofrer – os efeitos dessas guerras foram pessoas inocentes. Assim, o século XXI tornou-se “o século da guerra e dos refugiados”. E, agora, depois de tudo isso, eles estão tendo de enfrentar os muitos desafios trazidos pela pandemia da COVID-19. Ainda assim, continuamos vivendo em um mundo onde o 1% mais rico está protegido, em vez dos 99% que compreendem a maioria da humanidade; e essa disparidade entre ricos e pobres não para de crescer, ao mesmo tempo em que, por toda parte, regimes políticos autoritários estão em ascensão.

Enquanto isso, a constituição do Japão vem sofrendo um assalto constante: o “direito a defesa coletiva” está, por muitos motivos, funcionando exatamente da maneira como alguém poderia esperar, e aumentos nos gastos de defesa, além “do direito de atacar bases inimigas” agora estão sendo discutidos como algo natural.

Da mesma forma, planos para a “mudança da base de Henoko”, que já eram injustificados, agora estão sendo empurrados goela abaixo com mão de ferro – uma realidade que nos apresenta uma imagem cristalina do futuro do Japão. Com uma retórica tão rebuscada de modo a zombar do próprio idioma japonês, o poder do estado está cada vez mais invadindo e infiltrando cuidadosamente o coração da sociedade. Da minha perspectiva daqui da prisão, a sociedade japonesa continua a ter uma atitude ultrapassada e insensível em relação aos direitos civis. Como fica evidente pelo modo com que lidou com a pandemia do coronavírus, ela não tem capacidade de se adaptar a novas circunstâncias. Ela mostra favoritismo político para com os mais poderosos monopólios empresariais do mundo, e fica claro que as estruturas sociais japonesas – em todos os âmbitos, da seguridade social à agricultura – foram obrigadas a fazer sacrifícios para o benefício dessas corporações. E, ainda assim, apesar de tudo, as pessoas comuns continuam buscando paz e felicidade, fazendo o seu melhor para viver vidas honestas.

O que será que o ano de 2022 trará para o Japão que acabei de descrever? Ano que vem, é o 50º aniversário do retorno de Okinawa ao Japão. Cinquenta anos atrás, em 15 de maio, Okinawa tentou eliminar todas as bases militares em seu território, exigindo que fosse devolvida para a jurisdição japonesa; mas, ironicamente, longe de serem eliminadas, essas bases militares apenas proliferaram desde a devolução, e a população de Okinawa teve de sofrer continuamente sob uma política cada vez mais flagrante de incentivos e sanções. Claro, 2022 também marca o 50º aniversário do Incidente do Exército Vermelho Unificado[3]. Ultimamente, tenho pensando nessa época, quando inúmeros jovens e cidadãos defendiam incansavelmente a paz e o fim da guerra. Mesmo o partido de oposição criticou duramente o governo, e moradores das principais regiões e distritos do Japão elegeram um governador progressista. Eu, também, estava buscando a revolução nessa época. Mas o incidente do Exército Vermelho Unificado expôs as contradições da política de facção: ele foi uma derrota que deslocou a esperança e o sentido que poderia ter sido obtido de uma revolução social. Eu estava morando no mundo árabe na época, e era uma das muitas que reagiu aos eventos com um senso profundo de choque, arrependimento e autorrepreensão, já que estava inevitavelmente conectada a eles.

Ano que vem também é o 50º aniversário do incidente de Lydda, que ocorreu sob a liderança da FPLP. Mesmo agora, 50 anos depois, fico novamente espantada com o modo admirável com que eles lutaram.

Conforme olho para a expansão desse novo ano, muitos sentimentos diferentes surgem em mim. Posso sentir que uma nova ordem está sendo criada à medida que o mundo clama por maiores liberdades civis e luta por justiça climática. Desde 11 de setembro, as condições nas sociedades em todo o mundo – da Palestina ao mundo árabe até o Japão – foram piorando, e parece que a pandemia do coronavírus está provocando descontentamento. De minha parte, tenho certeza de que 2022 será um ano para refletir sobre o significado do movimento político que começou 50 anos atrás.

Então, do mesmo modo, quando penso na minha própria reclusão, não consigo deixar de pensar sobre quantos dos meus antigos camaradas ainda estão encarcerados ou são procurados internacionalmente, inclusive o Camarada Okamoto[4]. Mesmo à medida que olho adiante, para o início de um novo movimento, sei que estou severamente limitada tanto nas minhas capacidades quanto no curto tempo de vida que me resta. Mas, enquanto houver vida em mim, juro que, do fundo do meu coração, continuarei vivendo do jeito que sempre vivi, com a vontade de tornar o mundo um lugar melhor. Em um mundo que está rapidamente mudando devido a transformações constantes na tecnologia, nos smartphones e na Internet, preciso acima de tudo buscar um modo de viver que tenha valor para mim como ser humano. Ao reabilitar a minha mente e o meu corpo, ao estudar, ao cuidar das coisas um passo de cada vez e ao desfrutar do meu próprio senso de curiosidade, planejo continuar vivendo novamente. A partir daí, talvez, uma determinada esperança para o mundo e um senso cotidiano de solidariedade emergirá.

Com o coração transbordando de gratidão pela sua amizade, apoio inabalável e sentimentos sinceros, estou sonhando com as reuniões e encontros que terei no ano que vem. Que o ano que vem possa ser bom – para todos nós, juntos!

Um desenho e um poema tanka originais de Fusako Shigenobu, na capa do boletim A Oliveira, № 156. Em outubro de 2021, um vulcão submarino irrompeu na costa de Okinawa próximo à base de Henoko, fazendo com que uma massa de pedra-pomes obstruísse as águas abertas. Fusako compôs esse poema depois de saber do evento (da prisão, ela acompanhava de perto eventos atuais), interpretando a erupção vulcânica como uma revolta da própria natureza contra a militarização estadunidense de Okinawa. O poema em japonês diz o seguinte: “Pedra-pomes enterradas nas águas próximas da base de Henoko em Okinawa – a natureza, também, rebela-se contra o poder do estado”

Tradução do texto em inglês originalmente publicado em: https://medium.com/@lisahofmannkuroda/fusako-shigenobu-in-her-own-words-956886b6caee


[1] Ghassan Kanafani foi um escritor palestino e uma das lideranças da FPLP.

[2] Tanka é um gênero clássico de poema japonês.

[3] Também conhecido como o Incidente de Asama-Sansō, foi uma crise envolvendo membros do Exército Vermelho Unificado (EVU) e um cerco policial em uma hospedaria no Japão em fevereiro de 1972. Dois policiais foram mortos, a refém foi libertada, e os membros do EVU.

[4] Kozo Okamoto, é um antigo militante e membro do Exército Vermelho Japonês. Participou do ataque ao Aeroporto de Lod, onde foi ferido e capturado por Israel. Foi condenado à prisão perpétua, mas liberto 13 anos depois, numa troca de prisioneiros. Após cumprir três anos de prisão no Líbano por um crime não relacionado, recebeu asilo político no país. Até hoje, o governo japonês pede sua extradição sem sucesso.

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