O processo criativo editorial: as capas da Ruptura

O processo criativo editorial: as capas da Ruptura

Por Douglas P. Lobo

A Primeira Reunião 

Para comemorar o primeiro ano de existência da Ruptura, fui convidado para comentar um pouco do processo das capas dos livros Imprensa e Revolução e Nação e Proletariado, escritos por Karl Marx e Friedrich Engels. O primeiro trata da situação de determinados países que foram analisados pelos autores durante o tempo em que atuaram profissionalmente como correspondentes periódicos e o segundo sobre outros de seus escritos durante suas atuações como jornalistas, mais voltados para questões econômicas, parlamentares e de liberdade de imprensa da época, ambos recentemente organizados por Otávio Losada e Marcelo Bamonte , respectivamente.

As ideias iniciais das imagens dessas duas capas foram inicialmente concebidas por Otávio Losada e a influência inicial seria Watchmen, obra de história em quadrinhos escrita por Alan Moore, desenhada por Dave Gibbons e colorida por John Higgens, a qual é visualmente composta por linhas bastante definidas e uma paleta de cores fria e restrita, características marcante da época em que fora inicialmente publicada, no ano de 1986.

Watchmen, criado por Alan Moore, Dave Gibbons e John Higgins.

Imagens de referência iniciais criadas por Otávio Losada.

Já na primeira reunião, foi definido que haveria bastante peso na informação visual que compunha as artes em ambas as capas e que elas deveriam ser “irmãs gêmeas”, ou seja, deveria haver um senso de conexão entre ambas, como imagens-espelho uma da outra. Na primeira, tratava-se de representar de forma única e vertical um aglomerado de níveis compostos por prédios e casas, cada um tematizado pela cultura do país a ser tratado nas obras da época de seus criadores, Marx e Engels (1850). Já na segunda, a tarefa seria representar a amplitude dos galpões de impressão de jornais da revolução industrial, com seus maquinários, trabalhadores e complexidade de uma intensa rotina de trabalho no processo produtivo. 

Com isso, eu já havia definido qual seria o artista ideal para o projeto e de onde roubaríamos(!) Digo, aqui, “roubaríamos”, pois não creio que haja processo criativo frutífero e eficiente no campo da ilustração sem que tenhamos no canto da mente alguns daqueles artistas cujos trabalhos demonstram forte senso de originalidade e/ou que possuem grande relevância na produção de cultura popular nos dias de hoje. Sendo assim, busquei o nosso norte em algumas das minhas referências mais usuais em matéria de cenários e composição de ilustração: os diretores de arte japoneses Hiromasa Ogura e Shinji Kimura e o artista brasileiro João Ruas.

Foi então que entrei em contato com o artista, amigo e colaborador de longa data Armand Luro. Após um ano de colaboração em nosso projeto de jogo autoral, acabamos desenvolvendo um entendimento mútuo em nossos processos criativos e uma capacidade de tradução de ideias tal que tornou a nossa comunicação bastante fluida e direta. Em seu portfólio, há uma imagem em específico que dialoga muito com a direção inicial que havíamos decidido seguir. Logo, ele acabou sendo a escolha natural para o desenvolvimento das novas obras da Ruptura Editorial.

Por Armand Luro.

Nação e Proletariado

Seguindo a direção escolhida, Armand somou às referências dadas as suas próprias, os diretores japoneses Satoshi Kon e Katsuhiro Otomo. Tendo sido influenciado em parte pelas marcas caóticas tanto do roteiro quanto da estética de suas obras clássicas de animação, o artista realizou os primeiros esboços para Nação e Proletariado.

Ambas as imagens desenvolvidas com uma forte visão e capacidade técnica de composição que não perde em nada para diversos dos maiores artistas mais influentes no campo da ilustração internacional. Tamanha foi a força dessas composições que decidimos por manter uma delas como possibilidade para a segunda capa. A versão com o edifício como tema central foi a escolhida para a obra a fim de que nenhum dos níveis da estrutura representada perdesse foco na totalidade da composição.  

Após esse estágio, a renderização avançou com diversos detalhes que comunicam a mistura de conceitos almejados e a paleta de cores foi definida, após sucessivas discussões com a equipe inteira, partindo de um conjunto de cores frias para um conjunto de cores quentes, até que chegássemos a um consenso de qual paleta de cores melhor representaria o intuito do livro.

Imprensa e Revolução 

Já para Imprensa e Revolução, chegamos a 4 composições possíveis, cada uma com foco nos diferentes elementos a serem tratados na apresentação do produto: Marx e Engels, a classe operária, os maquinários de impressão e seus impressos.

Igualmente ao caso anterior, todas as versões possuem muita força e traduzem o conceito com incrível exatidão. Após nova reunião com a equipe inteira da editora, optamos por descartar a ideia de imagens-espelho e seguimos com a base que fora rejeitada em Nação e Proletariado e que acabou por ser utilizada na criação da quarta opção. Todavia, existia ainda a necessidade de se melhor representar a classe operária, de forma que ocupasse mais espaço na composição, como fora realizado nas outras três primeiras opções. Desse modo, foram adicionados alguns trabalhadores na parte do maquinário em segundo plano e uma versão atualizada foi concebida e apresentada já com a renderização em estágio mais avançado e com as primeiras variações na paleta de cores. 

Para esta imagem, foi necessária uma variedade muito maior de cores para o segundo plano da composição, de forma que juntos encontrássemos a melhor combinação que funcionasse para a própria composição ao mesmo tempo que dialogasse com a imagem da outra capa. Foram apresentadas 16 versões à equipe nesse estágio. 

Após uma pequena guerra amigável entre os membros, todos em disputa contra todos, como dita a tradição dentro da recente editora, chegamos, enfim, a um denominador comum, dando luz à imagem final. 

A Montagem 

Após a conclusão das imagens, foi realizado o processo de montagem das informações a serem dispostas nas capas. A composição de ambas foi pensada de modo a valorizar o máximo possível as ilustrações, sem que as informações perdessem a força e hierarquia necessárias para sua boa compreensão. 

Em Imprensa e Revolução, a designer Catherine Calognomos escolheu fontes que remetem à tipografia tradicional dos jornais: uma tipografia gótica para o título principal e, para o subtítulo, uma fonte serifada em caixa alta. Para que ficassem bem inseridos, sem causar grandes perdas ao protagonismo da ilustração, os elementos textuais têm uma cor clara, presente na imagem, aliada a um leve efeito de sobreposição com a paleta de cores da ilustração. A contracapa e orelhas adotam a mesma tipografia da capa e sua hierarquia, bem como o mesmo esquema de cores da ilustração, de modo que os textos se mantivessem legíveis.

Em Nação e Proletariado, a designer Ana Amélia Ribeiro selecionou a tipografia clássica, com serifa em caixa alta para o título principal e uma fonte sem serifa para o subtítulo. Todavia, a mesma fora utilizada em caixa alta e baixa, cuja hierarquização fora pensada a fim de destacar os nomes dos autores Marx e Engels. A composição do título no quesito estético fora trabalhada para que a ilustração não perdesse o protagonismo e que todas as informações contidas na mesma não fossem apagadas pelo texto. A contracapa segue o mesmo esquema de cores da ilustração, de modo que os textos se mantivessem legíveis e houvesse também uma alternância de cores entre as orelhas: uma orelha preta com a tipografia em tom laranja e uma orelha laranja com a tipografia na cor preta. Na lombada, há o diferencial de ser o primeiro livro pertencente ao selo Questão Nacional. Houve a aplicação de um tom amarelo contrastando com o fundo preto para que fosse gerado um efeito de pertencimento da obra a uma coleção. 

Douglas P. Lobo é diretor de arte na Water in Black Productions e desenvolveu ilustração e direção de arte para as capas dos livros mais recentes da Ruptura Editorial. 

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